(“A vida nova pós-manicômio é cheia de mistérios”)
Prezados leitores: Este conto relembra fatos do primeiro conto publicado ("O misterioso Hotel Oloffson"). Assim sendo, sugiro-lhes a leitura deste primeiro, para que a história fique completa.
Uma rápida introdução
Estava trancada ninguém sabia há quanto tempo. Ninguém sabia se comia ou bebia. Também todos se questionavam do porquê de as autoridades nada fazerem. O subterrâneo do velho casario, em um terreno do qual ninguém conhecia o passado, era cenário de uma crueldade sem tamanho. Isso era o que se pensava na cidade.
Milhares de pessoas circulavam pela região, e a porta sempre estava trancada aos curiosos. Era difícil pensar que ali morava uma família. Mais do que isso, o que se passava exatamente no porão?
Enquanto isso, longe dali...
Recém saído de um hospital psiquiátrico em Santo Domingo, após algumas semanas de reclusão, o velho executivo do petróleo voltou a si.
- Suis-je où? (Onde eu estou?)
- Lo siento, señor, pero no hablo francés. ¿Cómo está usted?
O enfermeiro não falava o idioma francófono, mas o paciente não falava espanhol.
- Je ne suis pas au Haïti? (Eu não estou no Haiti?)
- Sir, you’re at the Quisqueya Hospital in Santo Domingo.
- Am I in the Dominican Republic?
- Yes, you are, mister DuFois.
Na última vez que sua consciência mostrava sinais de normalidade, Pierre DuFois, cidadão do principado de Mônaco, estava em Porto Príncipe (ler o conto “O misterioso Hotel Oloffson”, Pedro Boeira, Porto Alegre: janeiro 2008). A falta de estrutura da capital haitiana obrigou os funcionários do hotel onde Pierre fora encontrado em estado de insanidade mental a pedirem ajuda à embaixada dominicana no Haiti. Assim, o país vizinho recebeu este antigo alto funcionário do petróleo.
- Que há comigo? Por que fui parar aqui? Enfermeiro, preciso fazer uma chamada internacional urgente.
Pierre ligou para a residência de seu amigo Claude Toulouse, em Monte Carlo. Atendeu a governanta da fina casa.
- Monsieur DuFois, votre ami monsieur Toulouse n’habite pas là depuis l’année dernière. (Senhor DuFois, seu amigo senhor Toulouse não mora mais aqui desde o ano passado).
- Madame, comment est-ce que je peux l’encontrer, s’il vous plaît? (Senhora, como eu posso encontrá-lo, por favor?), resmungou Pierre, pois Claude era a única pessoa com quem poderia contar para auxiliá-lo no trauma pós-Haiti. (Aqui, não faremos uma biografia do monsieur Toulouse, mas permita-me resumir: é cidadão de Mônaco e o braço direito de Pierre. Grato pela atenção, a história continua na próxima linha).
- Il habite à la Colombie.Je pense que vous savez qu’il est diplomate. (Ele mora na Colômbia. Eu penso que você sabe que ele é diplomata).
Eu sabia que Claude era estudante no ministério das relações exteriores, mas já ter se mudado era uma surpresa, falou consigo mesmo um inquieto Pierre.
Pierre teve alta do hospital. Recebendo seus pertences de volta, encontrou seu American Express. Hospedou-se no Hotel Hilton e ligou para a embaixada de Mônaco em Bogotá. Je voudrais parler avec monsieur Toulouse, s’il vous plaît. (Eu gostaria de falar com o senhor Toulouse, por favor). Por não haver uma boa desculpa, a secretária não completou a ligação. Nosso amigo Pierre poderia dizer que é um velho guerrilheiro que lutou na guerra entre Mônaco e San Marino e precisava de refúgio. Bem, nunca houve tal guerra.
Temendo dificuldade em encontrar Claude, Pierre voou para Bogotá no primeiro vôo semi-direto da manhã seguinte. (Caro leitor, Santo Domingo e Bogotá não são interligadas por vôos diretos). Seguiu do aeroporto ao hotel e do hotel à embaixada.
- Sou cidadão de Mônaco e preciso falar com o senhor Claude Toulouse.
- Não temos nenhum diplomata com esse nome, senhor...
- DuFois. Pierre DuFois.
- Senhor DuFois.
- Senhorita, afirmaram-me que o senhor Toulouse trabalha como diplomata na Colômbia.
- Senhor DuBois...
- É DuFois.
- Senhor DuFois, o principado de Mônaco possui consulados em outras cidades da Colômbia. Sugiro buscá-lo nos consulados em Medellín e Cartagena.
Por que Mônaco tem tantas representações diplomáticas na Colômbia?? Somos pequenos demais para tanta relação internacional, sugeriu um culto Pierre em seus pensamentos.
Soava o telefone no consulado de Mônaco em Cartagena.
- Consulado de Mônaco, bom dia.
- C’est toi, Claude?? (És tu, Claude?)
- Pierre?? Não creio!! Há semanas ninguém tem notícias tuas!
- Estive vivendo um grande pesadelo no Haiti. Meu biógrafo oficial, Pedro Boeira, contou, em detalhes, no conto O misterioso Hotel Oloffson. Quando dei por mim, estava na República Dominicana.
- Que bom ouvi-lo! Está em Monte Carlo?
- Não, em Bogotá.
- Vamos ver. Tu estavas no Haiti vivendo um pesadelo. Do nada, foi parar na República Dominicana. Depois, assim como eu, veio parar na Colômbia. Que ocorre?
- Estava te procurando. Preciso de uma nova vida. Larguei a companhia de petróleo. Bem, não os abandonei oficialmente, mas estive fora de consciência por semanas e devem ter me dado como desaparecido.
- Amigo Pierre, basta você se comunicar com a empresa.
- Isso é fato decidido. Não volto para a companhia.
- Ok, amigo. Em que posso ser útil?
- Eu te procurei na embaixada aqui em Bogotá, mas já percebeste que errei a cidade. Posso falar contigo em Cartagena?
- Eu o espero. Cheguei há pouco aqui, então estou morando em um hotel, o Bóvedas de Santa Clara.
- Pois hoje à tarde estarei no Hotel Bóvedas de Santa Clara.
De volta à cidade da introdução
Pierre deixou Bogotá. O frio andino dava espaço ao calor caribenho da nobre Cartagena. Instalou-se no luxuoso hotel no centro histórico da cidade e esperou por Claude, enquanto sorvia um rum colombiano no bar.
Claude estava de volta ao hotel. Parecia transtornado pelo calor. O clássico traje diplomático era quente demais para Cartagena. Encontrou Pierre admirando uma garrafa do Ron de Medellín.
- Tu n’aimes pas du tout boire. Tu as oublié? (Tu não gostas de beber de jeito nenhum. Tu te esqueceste?)
- Claude! Velho amigo Claude! Vamos falar em português para que os leitores nos entendam. Que prazer encontrá-lo!
- Pois aqui estou, caro Pierre. Viste só? Já sou um diplomata.
- Tens sorte de estar trabalhando na Colômbia. Enquanto executivo do petróleo, eu só parava na Libéria ou no Haiti.
- Conta-me tudo. Por que vieste me procurar?
- Eu enlouqueci no Haiti e estou afastado da empresa de petróleo, seja pelo meu sumiço, enquanto tirava férias no manicômio em Santo Domingo, seja pelo meu desejo de não viver o que eu vivi em Porto Príncipe ou outra cidade exótica para onde a empresa me mande. Você é o único que pode me ajudar. Preciso recomeçar a vida.
- Recomeçar como? És executivo de uma petroleira! Para que recomeçar?
- Não darei mais detalhes. Agora, ajuda-me, caro Claude.
- Pierre, aqui em Cartagena está acontecendo algo estranho. Ninguém tem cabeça para nada. Acredito que nenhum cartagenero pensa em dar emprego atualmente.
- Algo estranho? Vais me dizer que Porto Príncipe é café pequeno perto de Cartagena?
- Sei que tu viveste coisas estranhas em Porto Príncipe. Mas aqui não fica por menos, meu caro.
- Então, troquei seis por meia dúzia?
- Talvez, caro.
O que havia em Cartagena? A menina do porão. De alguns dias para cá, todos comentavam que alguém morava no subterrâneo daquela velha casa na cidade histórica. Algumas pessoas comentavam que os pais haviam admitido que trancavam, por motivos “perfeitamente justificáveis”, sua filha embaixo da casa.
Pierre achou a história muito simples, se comparada àquilo que aconteceu no Haiti. Poderia ir embora e recomeçar a vida em outro lugar, apesar de precisar do apoio de Claude, a única pessoa que entendeu o trauma de Pierre, até poucos dias atrás, hóspede de uma casa de loucos.
- Pierre, sinto dizer, mas aqui não é o teu lugar. Eu adoraria te ajudar, mas todos estamos consternados por pensar que há uma criança presa no porão de uma casa aqui no centro histórico.
- Claude, agradeço tua sinceridade, mas sem teu apoio, nada posso fazer.
- Tu sabes o que fazer, meu caro. Sabes que estou aqui no hotel para o que for preciso.
Recolheram-se a seus apartamentos. Pierre desfrutava uma água Evian enquanto pensava na história da menina do porão. Seria algo similar ao livro Do amor e outros demônios, clássico de García Márquez vivenciado em Cartagena?
Pierre foi ao apartamento de Claude.
- Onde fica a casa?
- Bem, minha casa fica na Rue Le Mardi, na parte leste de Monte Carlo e...
- Claude, eu falo da casa da menina do porão!
- Estás louco? Ninguém consegue entrar lá. Os tiras entraram uma vez, mas não encontraram nem menina nem porão.
- A casa, Claude.
- Sete quadras em linha reta e duas quadras à esquerda.
- Merci beaucoup, mon ami. (Muito obrigado, meu amigo).
A passos largos, Pierre seguiu as instruções de Claude. Boato ou não, nada de melhor tinha para se fazer. As belas ruas com as varandas das casas coloridas encantaram o ex-executivo do petróleo.
- Passaria a vida aqui!
Chegou à casa. Um pequeno grupo de curiosos batia à porta. Uns argumentavam que ouviam choros de crianças. Chamavam os pais de monstros desalmados. Fingindo-se de desentendido, com ajuda de seu livro Comment dire tout en espagnol, perguntou ao líder do burburinho:
- Com licença, cavalheiro, que se passa aqui?
- Um casal tranca a filha acorrentada no porão! Eles mesmos me contaram!
- Sob que argumento?
- Disseram que era o melhor para ela! São uns loucos! Chamei a polícia imediatamente. Os malandros são tão sem-vergonha que conseguiram ocultar o porão e a menina quando os guardas chegaram!
- Isso é verdade?
- Eles me disseram, senhor! Assumiram que, sabe Deus por que motivo, se é que há motivo, trancam a pequena no subterrâneo!
Pierre estava curioso. Sua nova vida de desempregado lhe parecia interessante. Embora com certos traumas, por que não investigar esse mistério? Deixou o pequeno grupo de baderneiros em frente à casa e foi para um café na Plaza Santo Domingo pensar no que fazer.
De regresso ao hotel, ligou para Claude da recepção, chamando-o para um drinque.
- Claude! Temos o que fazer essa madrugada!
- Comprar tua passagem para Monte Carlo?
- Claro que não! Vamos andar sete quadras em linha reta e duas quadras à esquerda.
- Perfeito. Na quinta quadra já nos pegaram e nos esquartejaram.
- Vamos pela praia então!
- Vamos? Quem disse que eu vou?
- Eu digo, prezado Claude. Iremos à casa da menina do porão.
- Tu achas que direi que vou?
De óculos escuros e casacos de veludo preto, saíram Pierre e Claude do hotel Bóvedas de Santa Clara. Um visual um tanto quente para o calor de Cartagena.
- Por que estamos vestidos assim, Pierre?
- Porque todo mistério precisa de uma roupa à altura!
- Tens certeza de que tiveste alta do hospital psiquiátrico?
- Estás insinuando que estou louco?
- Estou.
- Obrigado, caro amigo, muito obrigado. Agora vamos continuar a caminhada.
O vento soprava, mas nada que diminuísse o calor da heróica Cartagena. Claude se arrependera a cada instante de ter contado o boato da menina do porão.
Na casa, não havia sinal dos manifestantes. Pierre bateu na porta.
- Monsieur Pierre, faz cinco minutos que estamos aqui. Ninguém mora nessa casa.
- Não vou perder a viagem. Tocarei novamente.
- Vou solicitar ao ministério da saúde da República Dominicana que revise o manicômio de onde saíste.
- Sei que estás brincando e que confias em mim, Claude.
- Nenhum das duas hipóteses, caro Pierre.
- Por que me olhas desse jeito, Claude?
- Faz vinte e nove minutos que estamos aqui.
- Pois esperemos mais um pouco.
À 01:56 da manhã, 66 minutos depois da primeira batida na porta, acendeu-se uma luz. Passos eram ouvidos ao longe. Uma senhora alta e de cabelos extremamente lisos, em roupas pretas, perguntou-lhes:
- Bom dia, senhores, em que posso lhes ajudar?
- I’m from Monaco. I don’t speak Spanish.
- Obrigado por passar a bomba para mim, caro amigo.
- A senhora espera a resposta, Claude. Em que ela pode nos ajudar?
- Desculpe-nos, madame. Meu amigo insistiu que queria visitar a casa.
- Pois sejam bem-vindos.
A senhora os conduziu a uma sala e os deixou a sós, alertando que voltaria em poucos minutos.
- Pierre, sabes que estamos na maior fria da vida, não sabes?
- Agora saberemos tudo sobre a menina do porão, pense no lado positivo.
- Suponhamos que isso seja verdade. É notável que ela irá ao porão esconder a menina, não te parece?
- Alegro-me por acreditares na história. Isso me preocupa. Ouça o som dos degraus. Ela está indo ao subterrâneo para dar um sumiço na garota. O que faremos?
- E eu que sei? Tu que me trouxeste aqui, seu louco.
Os passos se aproximavam. Ela estava de volta.
- Caros senhores, acompanhem-me. Levá-los-ei para um lugar em que poderemos conversar.
Estavam próximos à porta com escadas. O caminho do porão. Ou desapareceriam ou descobririam tudo o que ronda esta casa de Cartagena. Uma cômoda e elegante sala surgiu.
- Desculpem-me pela demora, mas os cavalheiros devem perceber que arrumei o ambiente para mais bem recebê-los.
- Isso não parece cativeiro, Pierre.
- O senhor falou cativeiro? - intrometeu-se a senhora.
- Desculpe-me, senhora, mas você deve saber das histórias que se ouvem por aqui.
- Pois essa gente fala o que não deve. É um absurdo chamar de cativeiro esse ambiente tão elegante. Não acham?
- Parece-me que sim - suspirou um atordoado Claude.
- É um absurdo chamar de cativeiro o lar da minha filha.
Claude e Pierre se olharam. Em francês, comentaram: a história era verdade! Tens o número dos tiras para que resgatem, ao menos, nossos corpos?
- Os cavalheiros gostariam de conhecer a minha filha?
- Sim - suspirou um curioso Pierre, no seu fatídico espanhol.
- Pois ela está na sala ao lado.
- Viste, Claude? Não apenas esconde a menina aqui, como a esconde em outras salas subterrâneas. Fiz bem em vir até aqui.
- Eu preferiria esquecer tudo isso. Não sei como me convenceste a deixar o hotel para entrar neste lugar do qual não sairemos vivos.
- Senhores, apresento-lhes Clara Rodríguez.
Os dois amigos não entendiam nada. Havia apenas uma boneca, muito bem cuidada, aparentemente fabricada há algumas décadas. Estavam preocupados com o isolamento de uma boneca?
- Esta é minha filha, cavalheiros.
- Senhora, isso é uma boneca.
- Prezado senhor...
- Toulouse. Claude Toulouse.
- Senhor Toulouse, essa boneca está aqui desde 1966. Minha filhinha nos deixou nesse ano, um dia após ganhar a boneca. Ela brincava, mas sentiu dores no peito e faleceu na mesma noite. Esta boneca é como minha filha.
- Por que a esconde aqui embaixo? Por que deixa que todos a acusem?
- Minha filha sofreu o ataque na parte de cima, então criamos um andar subterrâneo, um lugar novo e seguro, para que essa boneca represente a nova vida de minha filha, minha amada Clara Rodríguez.
- É tocante sua história, senhora - comentou Claude.
O telefone tocou no andar de cima.
- Com licença, cavalheiros - a senhora solicitou e se retirou.
Sozinhos no misterioso porão, Claude e Pierre pareciam se tranqüilizar. Não havia nenhuma menina confinada ali, afinal. Um forte barulho interrompera o silêncio subterrâneo em um cômodo contínuo à sala onde estavam. Pierre foi averiguar. Era um quadro amplo, repleto de teias e mofo, que havia caído.
- Veja, Claude. Há uma foto da senhora e uma menina.
- Apesar do estado desse quadro, a foto é atual! Até o penteado da senhora é o mesmo. Quem será essa garota? Consegue ler o que está ali embaixo?
- Vamos ver:
Siempre estaremos aquí, Clarita. Diciembre 1888.
Xangri-Lá, janeiro de 2008.
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