Prezadores leitores: Esse conto possui breves referências ao conto anterior (A Menina do Porão), então a leitura em seqüência seria mais proveitosa. Porém, Os ventos da Martinica é um conto com vida própria e fica à sua escolha ler os contos em ordem ou não.
Podemos iniciar a trama em um hotel de uma praia, em um lindo dia em que os turistas desfrutam a piscina. Um dia perfeito contempla as férias de Jean François. Este velho funcionário do Tribunal de Contas de Mônaco estava sozinho, buscando a tranqüilidade nesta ilha em meio aos coqueiros e os aprazíveis jardins do charmoso hotel.
- Claude, aqui busco a paz tão desejada - dizia em um telefonema para seu amigo diplomata.
- Pois desfrute o frescor dessa praia. Aqui em Cartagena, o calor é escaldante.
- Nada pode tirar minha paz.
- Quanto tempo ficas aí?
- Um par de meses, no mínimo.
- Pois tirarei a tua paz. Irei para aí a fim de te confiar um trabalho.
- Eu estou de férias, Claude.
- Pago £12.000,00.
- Acabo de voltar das férias, Claude. O que há?
- Busco investir em um hotel da região. Necessito de um consultor em economia e finanças. Preciso saber quais as regiões mais rentáveis da ilha, analisando previsão de demanda, possível aumento do fluxo de turistas e captação de hóspedes da concorrência.
- Eu te espero em meu hotel.
Claude desembarcou no aeroporto de Fort-de-France, na Martinica. Os fatos de Cartagena o fizeram reavaliar a carreira diplomática (ler A menina do porão, Pedro Boeira: Xangri-Lá, 2008), levando-o a buscar novos investimentos. Um hotel na Martinica lhe parecia bom, muito bom.
- Bonjour, Jean François.
- Comment ça va, Claude?
- Ótimo! Espero que ainda melhor após nosso trabalho aqui.
- Marquei um roteiro de cinco dias para conhecermos as praias onde ainda há terrenos disponíveis.
- Comecemos já.
Enquanto Jean François levantava documentos para justificar um investimento turístico na região ultramarina francesa, Claude balançava-se em uma rede presa aos coqueiros, junto ao cintilante mar do Caribe. O vento aumentava, agitando o entorno. Em um lapso entre um cochilo e outro, constatou uma forte luz branca na janela do último andar do hotel. Digamos que foi um sonho.
- Vamos, Claude?
- Aonde?
- Ao hotel.
- Já estamos no hotel.
- Ao nosso hotel.
- Para...?
- Estás mais devagar do que nunca, ¿eh? Vamos ao hotel discutir os dados levantados hoje.
- D’accord.
As nuvens tomavam o céu de Fort-de-France em uma imagem fantasmagórica.
- Bienvenue à l’hôtel.
Reuniram-se em uma pequena sala.
- Os resultados mostram que a infra-estrutura da região e os fortes contratos entre o governo da Martinica com grandes operadoras de viagem são oportunidades consideráveis, e... Claude?
- Sim?
- Estás mais para lá de Bagdá. Que te ocorre?
- As nuvens.
- Sim, são formações causadas pela evaporação d’água. Que tem as nuvens, Claude??
- Não te parecem belas?
- Demasiadamente, Claude. Podemos continuar?
- Claro.
As sensações de medo e conforto se misturavam quando Claude observava o movimento das nuvens. Via imagens horripilantes e confortantes. Foi para seu apartamento de hotel sem ter guardado uma palavra das informações observadas por Jean François. No terceiro andar deste imponente hotel, Claude deitava-se em sua queen size e dormia. No meio do sono, percebeu uma imagem detrás do vidro da porta da sacada. O movimento constante o intrigava, parecendo um ser buscando contato. A seguir, voltava a dormir, não percebendo nada mais quando se despertava.
- O que achou das oportunidades quanto à praia visitada ontem?
- Que oportunidades, Jean François?
- De negócio! Vieste aqui para isso, não?
- Talvez.
- Tiras-me meus dias de férias para trabalhar e ficas todo avoado?
- Estive pensando nas nuvens. Elas seriam capazes de querer se comunicar comigo através da porta da sacada?
- Piraste de vez.
- Tu dizias...?
- Comentava sobre as oportunidades que essa ilha possui para teu empreendimento turístico.
- O que pensas que devemos fazer?
- Há um terreno que considero de extrema importância. Fica fora de Fort-de-France, mas com estrada pavimentada e é possível tornar a praia privativa.
Tomaram seu rumo em um jipe alugado. O velho terreno estava abandonado, apenas com as ondas do mar se encontrando com as rochas. Jean analisava gráficos de potencial turístico para os próximos anos na Martinica, enquanto Claude caminhava lentamente até o mar, sem qualquer preocupação em avaliar o terreno de um ponto de vista econômico.
Desde o mar, Claude podia visualizar um prédio de muitos andares, que estragaria aquele visual se fosse construído, como era seu plano inicial. Era apenas sua imaginação, mas o edifício ganhava cores fortes, vidros refletindo na luz matinal, elevadores panorâmicos, turistas observando a vista e, no último andar, as cortinas se movendo em um ritmo igual ao das nuvens noturnas, mesmo sendo de manhã.
- Claude?
- Sim?
- Com a cabeça em outro lugar de novo?
- De jeito nenhum. Estava imaginando o bloco de concreto e vidro que podemos levantar aqui.
- Isso me parece bom. Desde que chegaste à Martinica, parece que não entendes meia palavra do que te digo. Vê, Claude, as estatísticas não mentem. Há previsão de 100.000 novos turistas por ano no próximo decênio. A capacidade hoteleira da Martinica não suporta tudo isso, mas podemos resolver instalando um resort imenso nessa praia.
- Eu gosto da praia assim, abandonada, com a água tocando as rochas.
- Ok, senhor Natureza. Não foste tu que me pediste para projetar novos negócios turísticos?
- Foi brincadeira, amizade. Imagino 570 apartamentos só aqui nessa região.
Claude falava números aleatórios. O que lhe rondava era o movimento das cortinas no último andar do hotel que ele havia imaginado. Havia uma mensagem para ele, que não sabia decodificar.
De volta a Fort-de-France, Jean e Claude tinham algumas informações importantes para o hotel que buscavam instalar na ilha. Claude tinha consciência da relevância do negócio, mas negou uma reunião para discutir o assunto naquela tarde. Preferiu se deitar em uma rede à beira-mar, buscando, nos sonhos, alguma resposta para as nuvens e as cortinas ao vento que lhe perseguiam.
Claude despertou às 18h30min, assim que a noite tomava seu espaço. A rede balançava no compasso das nuvens e as cortinas de seu apartamento se agitavam, pois ele havia deixado a porta aberta. Estava fixado na comunicação da água evaporada no céu e ele. Voltou ao apartamento e decidiu observá-la da janela. Cada nuvem parecia ter um significado, embora ele não soubesse qual exatamente.
Claude sentou na poltrona de seu apartamento de hotel e olhou fixamente para as nuvens e a cortina ao vento. Balões de festa passaram a cair do teto para a cortina, formando as letras: RDC.
- Quem está me perseguindo? O que quer me comunicar?
Uma voz ao fundo dizia: Allez-vous... allez-vous...
- Por Deus, diz-me quem és tu!
- Vá... Vá... As letras... Os balões...
Claude tinha informações para o balanço das cortinas e o movimento das nuvens. Tinha que ir a algum lugar, mas não sabia qual. RDC eram as únicas letras que os balões formaram. Partiu em direção ao apartamento de Jean.
- Jean, abra a porta, por favor!
- Que te ocorre, amigo?
- Tu tens percebido que estou em outro universo.
- Sim, comentei algumas frases atrás que estavas para lá de Bagdá.
- Pois vou te contar o que acontece.
- Sei, já entendo, não queres mais meus serviços de assessoria de negócios.
- Infelizmente, não poderemos continuar com o projeto.
- Como não? Quero minhas doze mil libras!
- Jean, o assunto é muito sério.
- Ok, esqueçamos o dinheiro. Que tem acontecido?
- Desde que cheguei aqui à Martinica eu sinto que as nuvens e o vento querem me dizer algo.
- Sei, tu me havias comentado, mas não dei importância nenhuma. Por que agora eu deveria te dar importância?
- Eu não deveria contar, mas sozinho eu não posso solucionar isso. Preciso de alguém capaz de interpretar uma mensagem.
- E eu sou capaz?
- É claro que não, mas é a única pessoa que eu conheço na Martinica.
- Ah, obrigado.
- Sempre às ordens. Pois bem, Jean, fixei-me à cortina que era sacudida pelo vento, enquanto as nuvens ao fundo se movimentavam. Nesse momento, balões caíram e me deram uma pista: RDC.
- Vamos por partes. Pista de quê? E que diabos é RDC?
- Eu não sei que pista é essa e nem sei quem está me enviando essa mensagem, mas eu sei de algo: temos que sair da Martinica.
- Quem te disse isso?
- Depois da queda dos balões, ouvi uma voz grave me dizendo, ao fundo, “Allez-vous”. Ou seja, temos que ir, só não sei para onde.
- Digamos que nós descubramos para onde temos que ir. O que faremos nesse lugar?
- Isso eu não sei. Espero que os balões me dêem essa resposta.
- E como isso vai acontecer?
- Só tem um jeito. Preciso olhar para as cortinas ao vento.
- Não entendo nada do que acontece, mas percebo que tu estás diferente. Um ex-diplomata, hoje homem de negócios, não pode se deixar abater por pouco. E tu estás abatido. Essa comunicação de fato aconteceu, apesar dos elementos serem estranhos: vento, cortina, balões e vozes do além. Quando achas que os balões darão um novo sinal?
- Eu não posso saber. Mas temos que ficar em Fort-de-France até descobrirmos tudo para, então, sairmos daqui.
- E o projeto de construção de hotel?
- Deixamos para depois. Acredito que algum antigo escravo da Martinica nos está mandando um sinal.
- Antigo escravo?
- As vozes só podem vir de fora desse mundo, do mundo dos mortos. Tu sabes bem que a Martinica teve escravidão, basta ver a formação étnica dos moradores.
- É uma hipótese, mas o que quer esse antigo escravo?
- Só os balões dirão... Ou as vozes... Ou a cortina... Ou o vento... Nada é certo a partir de agora, Jean.
- Sinto que vou me arrepender de acreditar nisso.
A idéia do negócio turístico estava cancelada. Jean se envolvera no suspense, embora um tanto cético, e já não era possível discutir como abrigar 100.000 novos turistas por ano na Martinica. Mas o que fazer em Fort-de-France? Esperar algum palhaço oferecer balões em formato de letras, dizendo o que significava RDC e o motivo para saírem da Martinica?
Jean e Claude se encaminharam ao bar do hotel. À base de um coquetel de rum e cacau, os dois discutiam os rumos dessa confusa permanência na Martinica. Claude era diplomata até o momento que deixou Cartagena (ver conto A Menina do Porão) e Jean estava de férias na Martinica. Claude buscava novos negócios ao largar a carreira diplomática, mas agora não tinha carreira nenhuma, a não ser de investigador de nuvens e ventos comunicativos.
- Jean, minha vida está uma confusão dos diabos.
- E tu estás tentando tornar a minha também, não é?
- Mas que falta de confiança! Apenas te procurei para não enfrentar esse abacaxi sozinho. Querias que eu fingisse que não havia balões se comunicando comigo? Querias que eu continuasse sem entender patavina do que tu me dizias sobre as estatísticas e previsões turísticas para nosso ex-negócio hoteleiro?
- Queria.
- Não acredito. Aposto que darias tudo para ver um palhaço espalhando balões pela cortina do apartamento indicando que passos seguir.
- Confesso que estou próximo a acreditar nisso.
As portas do bar se fecharam. A música de circo predominava no ambiente. As cortinas se debatiam, o vento era forte.
- É um sinal, Jean! É um sinal!
Os outros ocupantes do bar foram sugados pela terra. Só havia Jean e Claude, a música de circo e toda a ventania. Os balões caíam aos montes, acomodando-se no chão, enquanto alguns poucos balões ficavam suspensos em frente a uma janela, formando uma mensagem:
Léopoldville.
- Não me resta dúvida, Jean. Já sei para onde iremos!
- Explica-me o que tem a ver RDC com Léopoldville.
- Léopoldville é a atual cidade de Kinshasa, que, por sua vez, é a capital da RDC - República Democrática do Congo.
- Por que iríamos para a República Democrática do Congo?
- É a única coisa que falta averiguar.
O bar retomava sua normalidade, com os clientes de volta às suas mesas, a música de circo já ia embora, mas ainda restava uma mensagem para eles, vindas de uma voz ao longe.
- Allez-vous... Allez-vous... Vocês precisam me salvar. A próxima mensagem os esperará no hotel Congolais Palace.
Jean e Claude arrumaram as malas, tomaram o primeiro vôo para Paris e, de lá, seguiram para Kinshasa. Dezenas de horas depois, aterrissaram na República Democrática do Congo. Saíram pelas poeirentas ruas de Kinshasa e procuraram o hotel Congolais Palace. De longe, viram o letreiro em fortes luzes.
- Achamos o hotel, Claude.
- Que hotel?
- Não vês as luzes?
- As que dizem “Morte Estrangeiros?”
- Meu Deus, há dois segundos estava escrito “Hotel Congolais Palace”!
- Isso não existe, Claude. Viemos até aqui porque imaginamos ter ouvido e visto mensagens. Isso é coisa da nossa imaginação.
- Os balões foram reais, ao menos para nós. Agora iremos concluir esse mistério.
No Hotel Congolais Palace, as luzes voltaram ao normal. Instalaram-se em dois apartamentos, com vista para o Rio Congo. Reuniram-se no terraço no último andar do hotel, para observar as nuvens e buscar mais alguma explicação, afinal a mensagem viria no Congolais Palace.
- Claude, o que pretendes? Salvar algum antigo escravo?
- Pois, em minha opinião, esse antigo escravo é originário do Congo e foi escravizado na Martinica.
- E que relação temos com isso?
- A mensagem chegará.
Um enorme avião sobrevoava Kinshasa, causando ruídos insuportáveis. Vinha da direção de Brazzaville, capital da vizinha República do Congo, e passava com os motores rugindo sobre a capital da República Democrática do Congo. Em meio ao barulho, Jean questionou:
- A mensagem chegou?
- Talvez tenha chegado, mas não ouvi nada!
Passado o avião, uma pequena folha de papel caíra no terraço do Congolais Palace. Claude leu o bilhete: Com mil escravos em um navio, saímos de nossa pátria, desembarcamos em uma ilha no mar do Caribe.
- Certo, Claude, os escravos congoleses querem alguma coisa de nós.
O avião passava novamente, agora mais ruidoso, de onde vinham milhares de balões. Os balões cobriram o terraço do hotel Congalais Palace, sufocando Jean e Claude. Enquanto isso, uma voz grave vinha, agora mais próxima, gritando:
- Vocês são representantes do colonialismo francês! Vocês nos tiraram do Congo e nos levaram para a Martinica! Não só nos escravizaram, mas seguem escravizando nossos descendentes que vivem lá no Caribe!
- Senhor Fantasma, uma correção...
- Cale-se, Claude! Acha que é bonito ver seus familiares em plantações de cana sem condições nenhuma de sobrevivência? Vocês foram os escolhidos! Vocês serão sacrificados em nome do povo congolês! Vocês, tiranos franceses!
- Senhor Fantasma, nós não somos franceses.
- Como que não?! Vocês falam francês e vieram do sul da França!
- Nós somos de Mônaco, que, apesar de ficar junto à França, tem soberania! Nosso país é outro!
Além da voz, agora aparecia uma nuvem cinza, que se transformava em homem. Era o escravo pouco letrado em geografia. Em suas mãos, um atlas geográfico era consultado.
- Vocês têm razão! Mônaco não pertence à França!
- Claro que temos! Agora poderia, por obséquio, retirar esses balões de cima de nós?
- Com certeza! Voem de volta para a Martinica! Minha tataraneta possui uma linda pousada à beira-mar! Procurem por Géraldine Du Marche.
Jean e Claude aproveitaram a visita à República Democrática do Congo e procuraram o gorila da montanha, já bem longe da capital. De volta a Kinshasa, tomaram o vôo para Paris e, a seguir, para Fort-de-France, na Martinica.
- Vou te confiar um trabalho, Jean!
- Claude, eu estou de férias!
- Te pago £15.000,00.
- Em que praia construiremos nosso hotel?
Porto Alegre, fevereiro e outubro de 2008.
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