Monday, November 17, 2008

Contos: O misterioso hotel Olaffson

Eu não estava muito feliz com a notícia. “Vais ficar seis meses no Haiti pesquisando oportunidades de negócios para nossa empresa”. E que diabos de oportunidades teria esse país? É tão pobre que não tem energia elétrica o dia inteiro. Minha casa recém comprada em Monte Carlo seria substituída por algum teto haitiano. Certo, é a vida de negócios.

Cheguei a Porto Príncipe logo cedo, após voar a noite toda desde Mônaco. Pensei eu: “já estive na Libéria investigando o setor petrolífero, o Haiti não deve ser muito pior”. Fui comunicado, dias antes, que não havia uma casa aceitável para eu morar, então a empresa achou mais seguro me hospedar em um hotel. A essa altura, tanto faz. Trocar Monte Carlo por Porto Príncipe era demais.

“Hospedaram-me no Hotel Montana, nas colinas entre Porto Príncipe e Pétionville, ao lado das raras mansões haitianas, bem longe da miséria do centro da capital”. Bem, depois disso eu acordei. O que me haviam reservado era um apartamento standard no decrépito Hotel Oloffson. Um hotel com história, com palmeiras, jardins e piscina que já foram um sucesso nos anos 50. Hoje, é um casario com apartamentos apertados. Bem, não importa, aqui estou para um trabalho temporário.

Desci do carro da empresa e me dirigi à recepção do hotel. No meio do caminho, derrubei um anão de jardim. Por que colocam essas coisas? Para o hóspede tropeçar? Já basta o desprazer de vir morar aqui. Calma, Pierre, por que tanta violência?

Instalei-me em minha “nova casa”. Um apartamento no segundo andar com um monte de palmeiras na frente e uma mini-varanda. Senti-me no Haiti do século XIX. Certo, o hotel é dessa época mesmo. Cansado. Exausto. Fatigado. Oh, que faço no Haiti? Por que não abro minha empresa e paro com essas viagens insuportáveis? Eu estava cansado, não é? Sim, estava. Deitei-me de roupa em um doloroso colchão. Não importa, era hora do descanso. Longe de casa, só penso em dormir. Espere, aqui é a minha nova casa. Vamos acordar? Não, permita-me sonhar mais com a velha Monte Carlo.

Pouco depois de meio-dia, acordei. A pestana me havia feito bem. Passou aquele ódio na alma por vir pesquisar mercado petroleiro no país caribenho. Pierre renovado, as coisas vão mudar. Dia livre. Oh, a empresa considerou que eu estaria cansado e não me encheu de trabalho nesse domingo de 40 graus. Bem, o que tem para fazer em Porto Príncipe? “Nada”, respondi-me. Bem, o que tem para fazer no hotel? Ir ao bar, o famoso bar. S’il vous plaît, votre meilleur vin. Quem disse que o barman tinha vinho para me oferecer? E quem é que toma vinho em um bar? Seria melhor uma cuba libre.

Voilà, monsieur. Ele me trouxe seu melhor rum. Ah, esse era bom. Eu não gosto de rum. Na verdade, não suporto álcool. Que faço em um bar? Ah, lembrei. No parágrafo passado eu concluí que não tem nada para fazer na cidade, então achei o hotel mais interessante. Je veux travailler, je veux travailler. Trabalho é melhor que curtir um hotel caindo aos pedaços. Que maldade, o hotel era charmoso. Era lindo, fantástico! Mas não para morar meio ano! Levei tanto tempo para comprar minha casa beira-mar em Monte Carlo para nada. Agora me encontro num cubículo de apartamento no hotel mais antigo do Caribe. Podiam me dar uma suíte no Villa Créole, lá nas colinas, longe desse inferno de cidade. Insisto: por que a raiva? Business is business.

Vamos lá, é a capital do país. Deve ter pelo menos algum restaurante. Eu já sentia fome. Recepção do hotel, vamos lá. Bonjour, madame, vous pourriez me parler de les restaurants de Port-au-Prince?. Em bom francês com sotaque crioulo, a senhora, com alguma simpatia, respondeu-me: “Meu querido, esse hotel já não é grande coisa, imagina fora dele”. Certo, subi as escadas para o restaurante do Oloffson. A mesa na varanda mostrava a linda vista das palmeiras do hotel. A paz me retomava. Logo estarei em Monte Carlo. Claro que, ao regressar, vão me realocar em Lagos ou Monróvia. Ah, tanto lugar bonito e me mandam para Nigéria e Libéria. Mentira, agora estou no Haiti. Depois, quem sabe peço as contas e vou morar nas ilhas Fiji?

Quase cinco horas de Haiti e só vi Porto Príncipe do táxi. Isolei-me no hotel, que nem de luxo era para justificar. Apesar da demora, o almoço foi prazeroso. Descobri meu lugar para jantar, não vou me arriscar a sair do hotel. Mas como quando eu falo uma coisa eu nunca cumpro, cinco minutos depois da sobremesa fui dar uma volta na capital. Coloquei o pé na rua. Veja só, é domingo em Porto Príncipe. Admirei o hotel por fora e um ônibus multicolorido passou raspando em minha camisa. Por que eu saí do hotel? Lembrei, porque queria me incomodar. Ou você acha que sair caminhando pela capital do país mais pobre da América é algo muito divertido?

Você quer se incomodar, Pierre? Quero. E caminhei várias quadras. Por que não vim de bermuda? Devia fazer mais de quarenta graus. Caminhei até o porto. A cidade era pavorosa. Pierre, aqui é sua nova casa, adapte-se. Ouvi o que falei para mim mesmo e decidi me adaptar. Mas quem se adapta em um lugar em que nada se faz? A pobreza não me surpreendia. Em Monróvia era parecido.

Não fiquei cinqüenta minutos na rua e fui caminhando. Eu não tinha medo, só tinha tédio. Um rapaz de dois metros e dez de altura se aproximou querendo uns gurdes ou dólares. Meu amigo, eu só tenho euro e olhe lá. Desanimado com a minha linda cara de “que saco”, o pobre infeliz foi embora sem me levar nada. Tristeza espanta. Perdão, tédio espanta.

O velho Oloffson, meu tão querido e odiado hotel. Já estava sentindo carinho por essa casa velha de vinte apartamentos. Era meu lar. Olhando para o imenso céu azul, distraído, tropecei em algo. A queda foi boa, mas nada dói mais do que não estar na minha casa em Monte Carlo. Levantei-me e vi o objeto que provocou tal cena: o velho anão de jardim.

Não quis emplacar uma briga com os enfeites do jardim do hotel, assim que segui para o elevador e subi para o 20º andar. Desculpe, o hotel é uma casa e não tem elevador. Fui de escada para o segundo andar e decidi tomar um banho para ver se me arejavam as idéias. O hotel poderia ter dito “leve água para o banho”. Uma linda água cor ferrugem saía em múltiplas gotas da velha ducha. Reclamar adianta? Acho que não. Recepção, meu chuveiro está com a água colorida. Que cor, senhor? E importa a cor? Sim, senhor. Senhorita, meu banho está na cor amarela tendendo à ferrugem. Por dez dólares adicionais consertaremos, senhor. Querida, a minha empresa pagará tudo, então faça o que for necessário. Em duas horas tudo estará bem, senhor.

Lá estava eu dormindo de novo. Banho no Haiti não é algo muito fácil. E energia elétrica também não. Início da noite, olhei pela varanda e o que vi? Nada. Tudo apagado. Recepção, a cidade está escura, incluindo o meu apartamento. Isso é normal no Haiti, senhor. Mas eu não sou haitiano, senhorita. São cinco dólares pela energia noturna, senhor. Na conta da empresa, por favor. E meu sorriso irônico aparecera. Talvez rindo eu suportasse melhor essa minha nova casa sem banho e sem luz.

Poderia ser pior, conformei-me e me deitei. Acordei de madrugada. Ouvi uma voz no corredor. Claro que não fui conferir, afinal está tudo escuro e não confio em nada aqui. Pierre, c’est moi. Pierre, sou eu? É quem? E como sabe meu nome? Pierre, je t’espere. Para não me incomodar com essa conversa exótica, decidi pensar que era um sonho e voltei a deitar. Certo, não era sonho, mas e eu lá vou discutir com alma penada a essa hora de madrugada? Melhor outra hora.

Despertei brigando com o travesseiro. Por que o Sheraton não compra esse hotel e coloca seu cardápio de travesseiros? Certamente eu encontraria um melhor. Ok, não é padrão Sheraton, é um hotel para vivenciar a história haitana. Já vivenciei histórias mais confortáveis. Lembrei-me das vozes noturnas. Estaria eu com certeza ao acreditar que fora realidade?

Um rico café da manhã me esperava na varanda do restaurante. Ao longe, observei o jardim frontal do Oloffson. As plantas, as árvores, as flores, as formigas e aquele simpático anão de jardim que me fizera cair em algumas oportunidades estavam ali recepcionando quem entrasse nesse casarão que virou hotel.

Chega de envolvimento com o Oloffson, pois logo virá o carro da empresa me levar para o escritório. Tirei meu terno azul escuro e combinei com uma gravata vermelha com listras brancas, talvez uma homenagem subliminar à bandeira do Haiti. Homenagear o quê? Talvez os pesadelos, a falta de energia elétrica na cidade, as esculturas voodoo que apavoram e encantam os hóspedes.

Uma grande camioneta blindada me levou pelas empoeiradas ruas de Porto Príncipe. Subimos as colinas e a vista era encantadora. Chegamos ao escritório em Pétionville. Se a empresa fica em Pétionville, por que meu hotel fica em Porto Príncipe? Os hotéis de Pétionville não têm vozes noturnas nem paredes de madeira a ponto de desabar.

Com uma magistral vista para a baía de Porto Príncipe, passei a me adaptar ao novo país. Com instalações recentes, o escritório era o lugar mais cômodo no Haiti até agora. Vamos, Pierre, ligue para Monte Carlo e peça uma hospedagem que ao menos tenha um travesseiro mais confortável. Telefone no Haiti não é um exemplo de funcionalidade, então não consegui chamar Mônaco. Pressentia que eu deveria ficar no Hotel Oloffson.

No intervalo para o almoço, caminhei por Pétionville em busca de uma imobiliária. Não encontrei nenhuma. Em uma região de condomínios de luxo (escassos em um país tão miserável), falei com o porteiro. Monsieur, há alguma casa disponível para locação? A resposta foi “bien-sûr, quem tem dinheiro aqui já foi embora e deixou a casa para alugar”. Como ainda tinha tempo, fui visitar a casa. A elegância era imensa. Meu salário poderia pagar, mas a empresa só pagaria o Oloffson, não esse paraíso de condomínio.

Visualizei-me em um cenário de ficção. Agradar-me-ia trocar o centro agitado e perigoso de Porto Príncipe por um condomínio de luxo nas colinas, afastado da miséria, muito próximo ao escritório. Não pensei muito e me dirigi ao porteiro: Como faço para alugá-lo? Bien, monsieur, vous pouvez... Não o deixei encerrar a frase. Merci, mais je vais retourner à l’hôtel. Por que eu desisti do condomínio? Nem eu sabia, mas senti que daqui eu não levaria boas recordações.

Caminhando pelo jardim do condomínio em direção ao portão, meu pé ficou preso em algo. Era pesado e estava coberto de terra. Fui verificar. O anão do jardim do Oloffson! Era igual a ele! Calma, Pierre, o calor está lhe fazendo mal. Deve ser tradição no Haiti possuir esse tipo de adorno no jardim.

Fiquei a tarde pensando no ocorrido. Anões de jardim me fazem tropeçar e têm a mesma cara. Era realmente um país muito estranho. Pela quantidade de trabalho, acabei esquecendo a história do jardim. Ao sair do escritório, tudo se apagou. O apagão noturno começara outra vez. Na escuridão, o motorista me levou ao Oloffson. E o velho anão de jardim me recebeu, como sempre, em frente à entrada do hotel. De fato, não era o mesmo que estava no condomínio, falei-me. E como seria?

Hoje a água do chuveiro estava límpida. A cama já não me incomodava. Aproveitando a boa sorte do momento, fui ao bar para não pensar em vozes noturnas. Monsieur, je voudrais du cognac, s’il vous plaît. O forte gosto do conhaque me lembrava de épocas em que minha paz era maior. Recém recebera meu novo bar acabado em madeira na minha residência em Monte Carlo. O conhaque era uma boa lembrança. Pierre, você está no Haiti. Verdade, aqui estou e pararei com as recordações.

Do bar, migrei para o restaurante. Por que eu não ia aos finos restaurantes de Porto Príncipe? Porque não havia finos restaurantes em Porto Príncipe. Além disso, o cansaço me impedia de procurar um restaurante em Pétionville, o belo subúrbio rico da empresa, onde fizeram questão de não me hospedar.

Decidi não me incomodar mais. Sair do principado mais fino do mundo e ir para o país mais pobre da América não é motivo para tristeza. Ok, eu prefiro Mônaco. Permita-me chorar. Lembrei-me de minha conta bancária e concluí que meio ano no Haiti era suportável. Também lembrei que dormir é um bom hábito, então me dirigi para o sono da noite.

Pierre, c’est moi! Pierre, c’est moi! A voz da outra noite me atordoava na cabeça, mas agora era sonho. Eu não conheço ninguém no Haiti, então não teria como conversar com esse ser que me incomodava toda noite. Havia deitado cedo, então me levantei às cinco da manhã, faltando algumas horas para o trabalho. Ainda era escuro, embora amanhecesse cedo em Porto Príncipe.

Fui para a varanda. Passos se ouviam ao longe. O piso de madeira do Oloffson destacava sons distantes. Mas nesse horário, tive de averiguar. Dois segundos depois estava atirado debaixo do lençol. Bem, já disse que eu nunca cumpro o que digo. Não ia averiguar nada. Bateram na minha porta. Entre. Por que eu disse para entrar? Eu trago paz, dizia a voz. Não sentia a presença de ninguém, apenas uma voz. Desde que essa voz começou a me perseguir, paz era o que eu menos tinha. Eu trago paz.

A porta se fechou. Eu não saí debaixo do lençol nem por um segundo para ver quem havia entrado. Era hora de eu sair correndo e voltar para Mônaco. Coloquei tudo na mala e saí em disparada para a saída. No jardim, tropecei em algo. Maldito anão de jardim! Na verdade não havia sido o anão que me derrubara. Olhei ao redor e não havia nem sinal do anão de jardim. Por um instante, lembrei-me do anão que estava no condomínio de luxo que eu havia visitado em Pétionville. Era o mesmo anão, pensei, em um momento fora da realidade.

Por que um anão de jardim teria interesse em me enlouquecer fazendo vê-lo por todos os lados e falando comigo? Eu que não ia ficar para descobrir. Saindo à rua, não havia táxi nenhum. Não me restou fazer nada além de ir à recepção solicitar um táxi. Olá, Pierre. O anão estava de volta. E me cumprimentou. Pierre, você tem um isqueiro? Claro, respondi. Em instantes, o Oloffson ardera em chamas. Não recomendo dar um isqueiro a um anão de jardim.

Hóspedes e funcionários corriam desesperados. Feu! Feu! Quelqu’un peut téléphoner aux pompiers?? Fiquei quieto. Minha versão do incêndio seria um tanto fora da realidade. Senhores, o anão de jardim me pediu um isqueiro e incendiou o velho casarão! Nem eu acreditaria nisso.

Consegui me comunicar com a empresa em Monte Carlo. Disseram-me para ficar, que eu era fundamental para os negócios no Haiti. O anão de jardim assassino parecera ter queimado junto. Decidi ficar, afinal havia trabalhado apenas um dia. Realocaram-me no Hotel Montana. Infelizmente, foi necessário um incêndio no Oloffson para que eu fosse para meu hotel de sonho, no ar puro das colinas com a melhor vista de Porto Príncipe.

Apesar do susto, o dia de trabalho foi tranqüilo. Ninguém havia se ferido, como por milagre. Pelo rádio, o proprietário do Oloffson lamentava a perda de muitos itens de decoração. O anão entre eles, pensei. Retomei as atividades. No Hotel Montana, eu tinha uma suíte com vista para a baía e para as colinas. A elegância da decoração crioula tornava o ambiente agradável. Fui jantar no terraço e lá fiquei por horas. A beleza natural em meio à miséria.

Fui-me deitar. Horas depois, alguém me acordou. Pensei que a camareira estava entrando para repor o frigobar. Posso entrar, senhor? Sem olhar, resmunguei: Sim, por favor. A porta bateu.

Que agradável voltar a dormir, o Haiti estava parecendo mais interessante agora. Minutos depois, a porta se abriu de novo. Esqueceu algo, senhora?¸ perguntei-lhe, novamente com o rosto contra o travesseiro, e ouvi a resposta:

C’est moi, Pierre.

Porto Alegre, 13 de janeiro de 2008.

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